A cirurgia robótica saiu da fase de novidade para a de padrão-ouro em um número crescente de procedimentos. Em 2026, hospitais brasileiros de ponta estão equipando centros cirúrgicos inteiros com plataformas robóticas, é o debate deixou de ser se vale a pena para qual plataforma escolher. A concorrência real, enfim, chegou ao mercado dominado por quase 25 anos pela Intuitive Surgical.

Evolução da cirurgia robótica

O primeiro Da Vinci foi aprovado pelo FDA em 2000. Em 2026, o mundo tem mais de 9.500 sistemas instalados é algo como 15 milhões de procedimentos robóticos já realizados. A área cresceu em ciclos: cirurgia urológica na primeira década, ginecológica e geral na segunda, torácica e colorretal na terceira. Agora, com a chegada da quarta geração, o foco se expande para cabeça-pescoço, cardíaca minimamente invasiva e transplantes.

Da Vinci 5 em detalhes

Lançado comercialmente no início de 2024 é agora em rollout global amplo, o Da Vinci 5 trouxe três mudanças significativas. A primeira é o Force Feedback, que devolve ao cirurgião a sensação tátil durante a manipulação de tecidos — algo que faltava em todas as gerações anteriores é que cirurgiões pediam há 15 anos. A segunda é uma nova arquitetura de processamento com 10.000 vezes mais poder computacional, permitindo análise de imagem em tempo real é alertas de segurança assistidos por IA.

A terceira, mais sutil mas importante, é a plataforma de dados: cada procedimento gera telemetria rica que alimenta ferramentas de treinamento e benchmarking entre cirurgiões. O preço de lista ronda US$ 2,4 milhões, sem contar instrumentos descartáveis e contrato de manutenção.

Concorrentes Medtronic e J&J

A novidade de 2025 e 2026 é que a Intuitive finalmente tem concorrência real. O Hugo, da Medtronic, aprovado pelo FDA em julho de 2025 após anos na Europa é em mercados selecionados, entrega 80% das capacidades do Da Vinci 5 por cerca de 60% do preço, com modelo modular que separa os braços do console. Em cirurgia urológica e ginecológica, estudos independentes mostram equivalência clínica.

A Johnson & Johnson lançou o Ottava em escala limitada no final de 2025, focado em simplicidade operacional e integração com o ecossistema Ethicon de instrumentais descartáveis. É mais barato, mas ainda cobre menos especialidades. Fora desse eixo, CMR Surgical (Versius) e Distalmotion (Dexter) ocupam nichos relevantes na Europa.

Hospitais brasileiros equipados

O Brasil tinha 152 sistemas Da Vinci instalados até março de 2026, concentrados em capitais. Hospital Sírio-Libanês, Albert Einstein, Oswaldo Cruz, BP Mirante e HCor lideram em volume em São Paulo. No Rio, D'Or, Copa Star e INCA operam consistentemente. Em Brasília, o Sírio é o DF Star. Porto Alegre tem o Moinhos de Vento. Hospitais universitários públicos ainda são exceção — USP, Unicamp e Hospital de Clínicas de Porto Alegre são os poucos da rede pública com programas robóticos estruturados.

O Hugo, da Medtronic, começou a ser instalado em hospitais brasileiros no segundo semestre de 2025. Albert Einstein e Sírio-Libanês foram os primeiros a adotar a dupla plataforma, permitindo comparação interna de desfechos.

Resultados clínicos comprovados

Em prostatectomia radical, hoje mais de 90% dos procedimentos em hospitais equipados são robóticos, com menos sangramento, internação mais curta e recuperação funcional superior à cirurgia aberta. Em histerectomia por indicação oncológica, a vantagem é semelhante. Em cirurgia colorretal e bariátrica, o benefício é mais modesto — existe, mas não justifica sempre o custo.

Metanálises publicadas em 2025 sugerem que a vantagem robótica é maior quanto mais restrito o campo cirúrgico é mais delicada a dissecção. Em procedimentos amplos e rápidos, a laparoscopia convencional segue competitiva.

Custos é acesso pelo SUS

Aqui está o ponto doloroso. Um procedimento robótico custa ao hospital privado brasileiro entre R$ 12 mil e R$ 25 mil a mais que o equivalente laparoscópico, considerando apenas insumos é amortização. Os planos de saúde cobrem cada vez mais indicações, mas com glosas frequentes e critérios rigorosos.

No SUS, a situação é crítica. A robótica não faz parte da tabela de procedimentos do SUS na maioria das especialidades, o que significa que pacientes dependentes exclusivos do sistema público não têm acesso — exceto em hospitais universitários que absorvem o custo em projetos de pesquisa ou parcerias. É um gap de equidade que cresce à medida que a técnica se consolida como padrão de cuidado, é que a regulamentação federal ainda não começou a enfrentar com a seriedade que o assunto exige.

A cirurgia robótica em 2026 é, ao mesmo tempo, uma das maiores conquistas tecnológicas da medicina moderna é um espelho incômodo das desigualdades do sistema de saúde brasileiro. Os dois fatos não se cancelam — convivem, é definem o próximo capítulo da área.